Desde que eu e meu irmão começamos a trabalhar, ainda na adolescência, colocamos uma moça para ajudar minha mãe nos afazeres domésticos. Minha mãe, apesar de ser uma mulher muito forte de espírito e cheia de vida, sempre teve saúde frágil. O que não imaginávamos é que a tal “moça” viria a piorar tudo. Não tem nada de trágico, porque era realmente cômico. Tudo bem que minha mãe teve que tomar lexotan receitada por seu médico por causa da dita cuja, mas era muito engraçado o jeito como as coisas aconteciam em casa. O nome da figura era Geralda. Parecia uma caricatura de traços arredondados, lábios grossos (que foram quase arrancados pelo meu pequinês), uma vez que a mesma insistiu em beijá-lo jurando que tinha o espírito de São Francisco de Assis (?) rs. A mulher era completamente doida. Independente da temperatura não tirava um casaquinho de manga comprida cinza chumbo que parecia que havia nascido com ela. Descia para varrer o quintal e ficava horas por lá. Quando minha mãe a chamava, porque o almoço sequer havia começado a ser feito, lá estava a Geralda lavando pedrinhas no tanque. Ela olhava para a minha mãe e dizia “olha as pedrinhas que eu achei”. O sangue da minha mãe fervia, a pressão ia nas alturas. Eu, meu irmão e meu pai adorávamos chegar em casa e escutar minha mãe contando os casos. Ela ia se transformando no decorrer da história. Se vivêssemos na ficção veríamos minha mãe transformando-se no Hulk. E o que mais gostávamos era a forma que ela tinha de gesticular e fazer com as mãos como se estivesse esmagando os vasinhos de “plantinhas” da Geralda. Ai, era o máximo. Uma tarde minha mãe estava assistindo a um filme, super concentrada. Eis que chega Gerada na sala, olha para a tv e diz, em meio aquele sorriso meio babão que lhe era peculiar: “-Ahhhh, já ví esse filme. Esse filme é aquele em que o menino cai da ponte e morre no final.” Dona Dedê pulou da sofá xingando: “Geraldaaaaaaaaaaa! Você contou o final do filme.” Nisso sua voz já estava completamente alterada e a vontade de minha mãe era pegá-la pelo pescoço e apertá-lo até ver sua língua parar no chão. Geralda saiu da sala e minha mãe ainda tentou concentrar-se no filme, aguardando a tal queda do menino da ponte e sua trágica morte.no final O filme acabou, não teve ponte e o menino não morreu. Dona Dedê quase teve um colapso e nós quase morremos de rir com a história. Mais uma para a coleção. Até que um dia nossa protagonista estava varrendo a sala e começou a olhar para o aquário, olhar, olhar, até dormir em pé abraçada à vassoura. Minha mãe não pensou duas vezes: mandou-a embora sem pestanejar e nós já tínhamos arranjado outra para substituí-la. Passamos um bom tempo pedindo a ela pra contar os mesmos casos, e ela SEMPRE ficava enfurecida… era impressionte. Hoje, lembrei-me disso num ataque de fúria e como nao tinha “plantinha”, usei a latinha mesmo. Saudades demais da D. Dedê, a melhor mãe que alguém pode ter. Te amarei eternamente. Sinto sua falta todos os dias.
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One thought to “No meio do caminho havia uma Geralda”

  • Anônimo

    É, a vida é mesmo uma colcha de retalhos. Lembranças vem e vão, e cada pequeno detalhe, ainda que muito méro, é mais um retalhinho que adicionamos as nossas colchas.
    Num outro "espaço", sempre poderá confirmar a certeza de que você sempre será especial à todos que ha conhecem. D.Dedê deve estar sorrindo.

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